Então, eu li esse discurso que circula por aí: a China descarrega toda a dívida americana e boom, os EUA desabam de um dia para o outro. Parece fascinante, né? Mas ouça os especialistas e entenda logo que é uma fantasia. Se você vender a dívida americana e o dólar despencar, bem... está apenas iludindo a si mesmo.



Então, o que é realmente essa dívida americana de que todos falam? Basicamente, é como se os Estados Unidos pegassem dinheiro emprestado do resto do mundo. Não precisam devolver o capital amanhã de manhã, mas os juros? Esses devem ser pagos todo mês, sem desculpas. Existem três tipos: a curto prazo (cerca de um ano), médio prazo (2-10 anos) e longo prazo (30 anos), cada um com sua taxa de juros.

Por que os americanos fazem isso? Simples: o governo dos Estados Unidos precisa de dinheiro para tudo. Infraestrutura, escola, saúde, assistência social, e principalmente a defesa. Ah, a defesa. Você sabia que em 2024 o orçamento da defesa americana atingiu 886 bilhões de dólares? É 3,2% do PIB deles e quase 47% dos gastos discricionários federais. Praticamente metade do que eles gastam, vai pra lá.

Mas aqui está o ponto: os EUA têm um PIB total de 27,37 trilhões de dólares em 2023. Parecem ricos, certo? Errado. Toda a economia americana é construída sobre dívida. No final de 2023, a dívida nacional total ultrapassou 34 trilhões de dólares pela primeira vez. Se você dividir entre 300 milhões de americanos, dá mais de 100.000 dólares de dívida por pessoa. Para cada cidadão.

Se um país não paga suas dívidas, é um mau menino. Bem, os Estados Unidos podem ser considerados o maior mau do mundo. E quando as receitas fiscais não cobrem os pagamentos de juros, ocorre o calote. E a dívida americana fica em sérios apuros.

E os juros sobre a dívida americana? Cerca de 600 bilhões de dólares por ano. Mais de 15% das receitas fiscais federais. E em 2024 venciam 8,9 trilhões de dívida nacional, quase um terço de tudo que está em circulação. Os juros atingiram 1,6 trilhão de dólares, tornando-se o maior gasto público nos Estados Unidos. Se as taxas permanecerem altas e adicionarem quase 4 trilhões de nova dívida por ano, logo metade dos impostos americanos se destinam apenas a pagar juros.

Mas o verdadeiro problema é este: o governo federal dos Estados Unidos vive acima de suas possibilidades. O déficit fiscal de 2023 foi quase 1,7 trilhão de dólares, com um aumento de 320 bilhões em relação ao ano anterior. Aumentou 23%. O governo gasta muito mais do que ganha e precisa pegar emprestado para cobrir o buraco.

Então, como eles pagam? Fácil. Aproveitam a posição do dólar nos acordos globais e imprimem mais dinheiro para diluir a dívida.

Agora, a China. Atualmente, o maior detentor estrangeiro da dívida americana é o Japão, com mais de 1,3 trilhão de dólares. A China vem logo atrás, com cerca de 767,4 bilhões. Então, alguns dizem: vendemos toda a dívida americana e fazemos o governo desabar de um dia para o outro.

Entendo o entusiasmo, mas pare um segundo. Primeiro, por que a China comprou a dívida americana em primeiro lugar? Quando a China entrou na OMC, as exportações decolaram. Tornou-se uma das maiores exportadoras mundiais, com um enorme superávit comercial. Esses ganhos em moeda estrangeira? Parte deles é investida em títulos do Tesouro americano. Por quê? Porque o dólar é a moeda universal, é estável, e os títulos americanos mantêm e aumentam seu valor.

Mas tem mais. As reservas massivas de títulos do Tesouro americano da China estão ligadas à política monetária do banco central deles. O Banco Popular da China regula a taxa de câmbio do RMB comprando títulos americanos, mantendo uma taxa de câmbio estável. Isso ajuda a competitividade das exportações chinesas e o desenvolvimento econômico.

Então, a China pode vender toda a dívida americana de uma vez? Qual impacto isso teria? Aqui está a resposta: não, não muito. Uma venda completa em pouco tempo não só afetaria o mercado financeiro global, mas causaria pânico. E a China? Sofreria perdas enormes, especialmente nas reservas cambiais e na estabilidade do RMB. É o que chamamos de uma situação lose-lose.

E mesmo que a China vendesse tudo, os EUA atrairiam outros compradores. Japão, Reino Unido, outros países aumentariam suas participações. O Tesouro e a Federal Reserve têm outras ferramentas: desaceleram as novas emissões para reduzir a oferta. Nada de extraordinário.

Mas o ponto mais importante? Os 767,4 bilhões de dólares de dívida americana da China são uma gota no oceano dos 34 trilhões totais. Não é um desafio. É como usar 767 bilhões de dólares para desafiar um colosso de 34 trilhões. Não funciona.

E depois há a máquina de imprimir dinheiro americana. Imprime mais de uma vez e pode produzir 1,5 trilhão de dólares em dois meses. Vender a descoberto os EUA? É uma tolice. Eles têm iniciativa sobre a moeda, então imprimem o quanto quiserem. Os dólares no bolso têm impacto desprezível no mercado de capitais em dólares.

Mas é verdade que a China está reduzindo suas participações na dívida americana. Antes atingiam o pico de 1,3 trilhão, mas em março de 2024 caíram para 767,4 bilhões. Se continuar assim, a China logo cairá para o terceiro lugar, atrás do Reino Unido.

E você sabe o que ela está fazendo ao invés disso? A China está acumulando ouro. Um ativo de reserva sem risco de contraparte. O Banco Popular da China adicionou ouro por 16 meses consecutivos, com reservas que ultrapassam as 300 toneladas.

Enquanto o Japão e o Reino Unido aumentam suas participações na dívida americana. Em fevereiro, o Japão adicionou 16,4 bilhões de títulos do Tesouro, seu quinto aumento consecutivo. O Reino Unido adicionou 9,6 bilhões, levando suas participações a 700,8 bilhões, tornando-se o terceiro maior credor externo. Até o Bélgica registrou o maior aumento em fevereiro, com 27 bilhões a mais, totalizando 320 bilhões.

É óbvio que os Estados Unidos querem expandir continuamente a dívida americana.

Em conclusão? A China detém uma grande quantidade de dívida americana, mas uma venda em massa não seria um golpe fatal na economia americana. Pode se mostrar contraproducente. Os EUA têm seus truques para gerenciar a situação. E a China está mudando de estratégia, reduzindo a dívida americana e aumentando o ouro. Afinal, é sempre melhor planejar com antecedência.
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