A minha avó deixou uma cassete antiga, com músicas folclóricas locais que ouvia na infância. As pontas da cassete estavam enroladas, e ao ouvir fazia um chiado sibilante, algumas palavras ainda se conseguiam distinguir de tanto serem rebobinadas e desgastadas. Ela costumava dizer uma frase que lembro bem: "Quanto mais antiga a voz, mais parecida com a verdadeira."
No ano passado, ao organizar os objetos dela, encontrei essa cassete. Tentei lê-la com um equipamento antigo, que ainda funcionava por pouco tempo. Convertei toda a gravação para um arquivo digital. O ruído de fundo era evidente, havia algumas distorções, e certos trechos quase não se conseguiam ouvir as palavras. Mas exatamente esses "defeitos" me permitiram ver como ela era — sentada na cadeira de vime, abanando um leque e cantando junto.
Depois, subi esse arquivo para um sistema de armazenamento distribuído. O sistema retornou uma confirmação de que o arquivo foi oficialmente registrado. Quando cliquei para ouvir, o efeito foi impressionante — a qualidade de som era incrivelmente limpa, o ritmo claro, e todos os ruídos removidos. Do ponto de vista técnico, ele conseguiu uma "armazenagem" e reconstrução "sem perdas".
Mas algo estranho aconteceu. Ao ouvir essa versão perfeita, senti que perdi a sensação de que "ela estava desaparecendo lentamente".
Depois de pensar, percebi que o desgaste na cassete não era um defeito. Aquele borrão era porque ela sempre errava a letra daquela parte, e o rebobinamento repetido fez a poeira magnética se desprender. Os ruídos eram o som de uma panela de mingau no fundo — o gravador estava na cozinha. Tudo isso era uma assinatura do tempo, uma marca da sua vida.
Mas o sistema distribuído interpretou tudo isso como "danos" que precisavam ser reparados. Ele suavizou todas as irregularidades, reconstruindo uma "versão ideal". O desgaste foi tratado como uma exclusão de erro, e não como uma evidência histórica preservada.
Consegui preservar a melodia, mas acabei perdendo o próprio tempo.
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AlwaysAnon
· 5h atrás
Caramba, este ângulo realmente me tocou... Parece que aqueles da blockchain querem "otimizar" tudo de forma a apagar a própria história.
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ForkItAllDay
· 13h atrás
Ai, esta é a questão do web3, o armazenamento permanente na cadeia acaba por matar a própria memória.
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FlashLoanLarry
· 14h atrás
Isto é absurdo, quanto mais perfeita for a tecnologia, mais desaparecem as marcas humanas
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SigmaValidator
· 14h atrás
Caramba, este ângulo é incrível, a tecnologia acabou por matar a própria memória
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SudoRm-RfWallet/
· 14h atrás
Caramba, esta perspetiva é incrível, o algoritmo "otimizou" a memória tornando-a esquecimento
A minha avó deixou uma cassete antiga, com músicas folclóricas locais que ouvia na infância. As pontas da cassete estavam enroladas, e ao ouvir fazia um chiado sibilante, algumas palavras ainda se conseguiam distinguir de tanto serem rebobinadas e desgastadas. Ela costumava dizer uma frase que lembro bem: "Quanto mais antiga a voz, mais parecida com a verdadeira."
No ano passado, ao organizar os objetos dela, encontrei essa cassete. Tentei lê-la com um equipamento antigo, que ainda funcionava por pouco tempo. Convertei toda a gravação para um arquivo digital. O ruído de fundo era evidente, havia algumas distorções, e certos trechos quase não se conseguiam ouvir as palavras. Mas exatamente esses "defeitos" me permitiram ver como ela era — sentada na cadeira de vime, abanando um leque e cantando junto.
Depois, subi esse arquivo para um sistema de armazenamento distribuído. O sistema retornou uma confirmação de que o arquivo foi oficialmente registrado. Quando cliquei para ouvir, o efeito foi impressionante — a qualidade de som era incrivelmente limpa, o ritmo claro, e todos os ruídos removidos. Do ponto de vista técnico, ele conseguiu uma "armazenagem" e reconstrução "sem perdas".
Mas algo estranho aconteceu. Ao ouvir essa versão perfeita, senti que perdi a sensação de que "ela estava desaparecendo lentamente".
Depois de pensar, percebi que o desgaste na cassete não era um defeito. Aquele borrão era porque ela sempre errava a letra daquela parte, e o rebobinamento repetido fez a poeira magnética se desprender. Os ruídos eram o som de uma panela de mingau no fundo — o gravador estava na cozinha. Tudo isso era uma assinatura do tempo, uma marca da sua vida.
Mas o sistema distribuído interpretou tudo isso como "danos" que precisavam ser reparados. Ele suavizou todas as irregularidades, reconstruindo uma "versão ideal". O desgaste foi tratado como uma exclusão de erro, e não como uma evidência histórica preservada.
Consegui preservar a melodia, mas acabei perdendo o próprio tempo.