A gigante sul-coreana de fintech Toss está a planear lançar uma Layer 1?

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Atualizado: 2026-04-07 11:08

Em abril de 2026, foi noticiado que a Toss, gigante sul-coreana dos pagamentos e da banca, ponderava desenvolver a sua própria rede blockchain e emitir uma criptomoeda nativa. Com mais de 20 milhões de utilizadores, esta plataforma fintech mudou o seu foco para a infraestrutura de Layer 1 apenas um mês após apresentar a sua estratégia para stablecoins. No entanto, a decisão final ficou em suspenso — não por questões técnicas, mas porque a Lei Básica dos Ativos Digitais da Coreia do Sul ainda não tinha sido promulgada. Este impasse legislativo não só condiciona o roteiro público da Toss para a blockchain, como também evidencia uma questão mais ampla para o setor: num contexto de vazio regulatório persistente, como irão os grandes grupos financeiros tradicionais navegar a sua transformação para o Web3?

Porque Está a Toss a Transitar do Fintech para a Infraestrutura Blockchain

A entrada da Toss no setor blockchain não é fruto do acaso. Em março de 2026, a Toss lançou publicamente a sua estratégia "Money 3.0", com o objetivo de evoluir a plataforma para uma super-app financeira sem fronteiras, centrada em dinheiro programável e stablecoins. A operadora Viva Republica foi clara: a empresa pretendia apostar tanto na emissão como na distribuição de stablecoins, tendo a infraestrutura de rede como pilar central desta visão. Apenas um mês depois, surgiram notícias de que a Toss planeava um passo ainda mais ambicioso — desenvolver a sua própria blockchain de Layer 1 e emitir uma criptomoeda nativa, posicionando-se para competir diretamente com plataformas de Layer 1 como Solana e Klaytn, já dominantes no mercado coreano.

Do ponto de vista empresarial, a estratégia blockchain da Toss segue uma lógica clara: primeiro, migrar a infraestrutura de pagamentos para a blockchain através de stablecoins; depois, construir um ecossistema fechado com a sua própria rede pública; finalmente, integrar de forma fluida 30 milhões de utilizadores existentes em serviços Web3. Esta expansão "da aplicação para a infraestrutura" reflete a lógica estratégica por detrás do Tempo da Stripe e do Arc da Circle — controlo, captação de valor e conformidade são motivações comuns. A diferença é que o ponto de decisão da Toss está totalmente dependente do quadro regulatório.

Dilemas Comerciais Perante os Atrasos na Lei Básica dos Ativos Digitais

A Toss não conseguiu tomar uma decisão final entre arquiteturas de Layer 1 e Layer 2, sobretudo porque o processo legislativo da Lei Básica dos Ativos Digitais da Coreia do Sul está gravemente atrasado. Apelidada de "lei dos ativos virtuais de segunda fase", esta legislação abrangente visa regular áreas-chave como emissão de tokens, stablecoins e ETF cripto. Contudo, desde o início da agenda legislativa em 2025, o diploma tem sido sucessivamente adiado.

O atraso legislativo centra-se em duas questões polémicas: a elegibilidade para emissão de stablecoins denominadas em won e os limites de participação de grandes acionistas em bolsas de criptoativos. O Banco da Coreia defende que os bancos devem liderar a emissão de stablecoins, enquanto o setor exige que as instituições financeiras autorizadas também possam qualificar-se. O teto de participação para grandes acionistas em exchanges está fixado entre 15 % e 20 %, mas organismos parlamentares de investigação alertam que tal pode violar direitos constitucionais de propriedade e gestão. Além disso, profundas divisões no partido no poder levaram tanto o Comité de Política como a Força-Tarefa de Ativos Digitais a redigir versões distintas do diploma, complicando ainda mais o progresso.

Em março de 2026, uma reunião prevista entre partido e governo foi adiada indefinidamente devido a tensões no Médio Oriente, e fontes internas admitem que aprovar a lei ainda este ano é extremamente improvável. Entretanto, a Comissão de Serviços Financeiros está a implementar medidas mais rigorosas, como a verificação de ativos a cada cinco minutos nas exchanges, aumentando a pressão de conformidade em todo o setor. Neste cenário de "legislação estagnada, regulação a apertar", a Toss enfrenta uma enorme incerteza jurídica em qualquer decisão estratégica — seja a conformidade da emissão de tokens, a legalidade da operação de uma rede pública ou as restrições aos fluxos de capital transfronteiriços, nenhuma destas questões tem resposta clara.

Paralisação Estratégica e Custos de Oportunidade num Vazio Regulatório

O dilema da Toss está longe de ser caso único. O mercado cripto coreano atravessa uma crise estrutural marcada por enormes saídas de capital. Segundo a Comissão de Serviços Financeiros, cerca de 60 mil milhões $ em ativos cripto foram transferidos para exchanges estrangeiras no segundo semestre de 2025, um aumento de 14 % face ao semestre anterior. Os investidores coreanos recorrem cada vez mais a plataformas internacionais para contornar o endurecimento da regulação doméstica. Neste contexto, a estagnação da estratégia blockchain da Toss acarreta dois custos: por um lado, não consegue converter o tráfego de utilizadores em valor de ecossistema através da sua própria rede pública; por outro, arrisca perder a vantagem de pioneiro na corrida global das fintech pelas blockchains públicas.

Em paralelo, questões operacionais internas da Toss aumentam a incerteza quanto às suas ambições blockchain. A 10 de março de 2026, a app Toss Bank registou um erro na exibição de moedas, originando cerca de 19,4 milhões $ em transações e perdas de aproximadamente 6,9 milhões $. A Autoridade de Supervisão Financeira lançou de imediato uma investigação no local. Em plena preparação sensível para uma entrada no Nasdaq, este incidente técnico expôs fragilidades ao nível da infraestrutura. Quando uma fintech revela falhas graves no seu sistema central de pagamentos, a confiança do mercado na sua capacidade para gerir uma infraestrutura blockchain pública completa é inevitavelmente posta em causa.

Redefinir as Fronteiras entre Finanças Tradicionais e Ecossistemas Cripto

Caso a Toss consiga lançar uma blockchain de Layer 1, o panorama cripto coreano poderá ser profundamente transformado. Com uma base de 20 a 30 milhões de utilizadores, um vasto público mainstream poderia ser integrado de forma sistemática no ecossistema Web3. Este modelo de "tráfego como porta de entrada" pode alterar radicalmente a aquisição de utilizadores cripto na Coreia — passando do recrutamento ativo por exchanges para a integração direta em aplicações financeiras.

Contudo, a Toss não é a única candidata ao mercado coreano. A Coupang Pay iniciou preparativos legais para emissão de stablecoins; a Kakao está a desenvolver uma stablecoin em won baseada na blockchain Kaia; bancos de referência como KB Kookmin, Shinhan e Hana lançaram pilotos de liquidação com stablecoins. Em paralelo, emissores globais como a Circle e a Tether também requereram marcas registadas na Coreia, aguardando clareza legislativa para entrar no mercado. Neste cenário multifacetado, a vantagem competitiva da Toss reside nas licenças financeiras de largo espectro e na dimensão da sua base de utilizadores, mas, se a legislação continuar bloqueada, os primeiros a mover-se podem ser ultrapassados por novos entrantes.

Cenários Futuros: Três Caminhos Possíveis para a Estratégia de Blockchain Pública da Toss

Face ao atual processo legislativo e à dinâmica do setor, a estratégia blockchain da Toss poderá evoluir segundo três trajetórias principais.

Primeiro caminho: Priorizar o mainnet Layer 1 e aguardar pela legislação. Caso a Lei Básica dos Ativos Digitais seja aprovada no final de 2026 ou início de 2027, a Toss poderá optar por lançar uma rede pública de Layer 1 e um token nativo, construindo um ecossistema totalmente integrado. Este caminho oferece máxima integração vertical e captação de valor, mas acarreta o maior custo temporal.

Segundo caminho: Lançar primeiro uma Layer 2 e transitar depois para Layer 1. Perante a incerteza regulatória, a Toss poderia lançar inicialmente uma solução Layer 2, aproveitando a segurança e liquidez de mainnets existentes como a Ethereum para reduzir riscos de conformidade. Assim que a legislação fosse clarificada, poderia migrar para a sua própria Layer 1. Esta abordagem é mais cautelosa, mas pode implicar custos de migração após o lock-in do ecossistema Layer 2.

Terceiro caminho: Focar em stablecoins e adiar ou subcontratar a rede pública. Se os atrasos legislativos se prolongarem para além de 2027, a Toss poderá concentrar recursos no negócio de stablecoins e no desenvolvimento da carteira Web3, suspendendo os planos para uma rede pública própria. A empresa já requereu dezenas de marcas relacionadas com stablecoins e está a desenvolver uma carteira Web3 profundamente integrada com a sua plataforma móvel. Esta opção é a mais pragmática, mas oferece menor controlo do ecossistema a longo prazo.

Aviso de Risco: Os Efeitos em Cascata dos Atrasos Legislativos

Os prolongados atrasos na Lei Básica dos Ativos Digitais estão a ter impactos negativos em múltiplos níveis na indústria cripto coreana.

Em primeiro lugar, as saídas de capital estão a acelerar. Os ativos cripto dos investidores coreanos estão a ser transferidos para o estrangeiro, prejudicando a liquidez e rentabilidade das exchanges locais. Em segundo, a inovação empresarial está a ser travada. O consenso do setor é que o vazio legislativo impede a entrada de instituições financeiras e tecnológicas no mercado, bloqueando o crescimento. Em terceiro, a competitividade internacional está a enfraquecer. Os EUA aprovaram ETF spot de Bitcoin em janeiro de 2024, o regulamento MiCA da UE entrou plenamente em vigor em dezembro de 2024, enquanto a legislação coreana de segunda fase permanece bloqueada.

Para a Toss, os riscos do atraso legislativo são especialmente críticos. Se a lei vier a impor requisitos demasiado elevados para emissão de stablecoins ou mantiver uma separação rígida entre negócios financeiros e cripto, os planos para uma rede pública poderão enfrentar obstáculos de conformidade fundamentais. Além disso, se o teto de participação de grandes acionistas em exchanges for incluído na versão final, pode afetar profundamente as futuras operações de capital e a estrutura acionista da Toss. Mais preocupante ainda, fatores geopolíticos e ciclos eleitorais internos podem relegar ainda mais a legislação para segundo plano.

Conclusão

O plano da Toss para lançar uma blockchain de Layer 1 e uma criptomoeda nativa representa simultaneamente uma aposta estratégica de um gigante fintech no futuro do Web3 e um microcosmo do dilema legislativo dos ativos digitais na Coreia. Quando roteiros tecnológicos são forçados a parar pela incerteza regulatória, e o enorme tráfego de utilizadores não pode ser convertido em valor de ecossistema devido a lacunas de conformidade, a questão central para o setor é: perante a tensão constante entre atraso legislativo e inovação de mercado, conseguirá a Coreia manter a sua posição no panorama cripto global? Qualquer que seja a escolha final da Toss — Layer 1, Layer 2 ou stablecoin-first — servirá como um barómetro da intensidade desta tensão.

FAQ

P: A Toss planeia lançar a sua criptomoeda nativa em Layer 1 ou Layer 2?

A Toss ainda não tomou uma decisão final. A empresa está a considerar a emissão do seu token nativo numa mainnet de Layer 1, avaliando em simultâneo opções de expansão para Layer 2. A arquitetura final dependerá do avanço da Lei Básica dos Ativos Digitais na Coreia do Sul.

P: Porque é que a Lei Básica dos Ativos Digitais ainda não foi aprovada?

O atraso deve-se principalmente a duas disputas centrais: a elegibilidade para emissão de stablecoins em won e o teto de participação de grandes acionistas em exchanges de criptoativos. Além disso, divisões no partido no poder, fatores geopolíticos e ciclos eleitorais internos têm condicionado as prioridades legislativas.

P: Que iniciativas blockchain já foram desenvolvidas pela Toss?

Em março de 2026, a Toss anunciou publicamente a sua estratégia para stablecoins, planeando emitir e distribuir stablecoins em won e inaugurar a era "Money 3.0". A empresa já requereu dezenas de marcas relacionadas com stablecoins e está a desenvolver uma carteira Web3 integrada na sua plataforma móvel.

P: O que significa a emissão de tokens por parte da Toss para a indústria cripto coreana?

Com mais de 20 milhões de utilizadores, a entrada da Toss no universo blockchain pode tornar-se uma porta de entrada fundamental para a adoção mainstream de criptoativos na Coreia. Este movimento pode trazer um vasto público para o ecossistema Web3 e servir de precedente para a entrada de outras instituições financeiras tradicionais no setor cripto.

P: Se os atrasos legislativos continuarem, que estratégias poderá adotar a Toss?

A Toss poderá seguir uma de três estratégias: aguardar pela legislação e lançar uma mainnet Layer 1; priorizar soluções Layer 2 para reduzir riscos de conformidade; ou focar recursos no negócio de stablecoins e desenvolvimento de carteira Web3, adiando os planos para uma rede pública. O caminho específico dependerá do progresso legislativo e das condições de mercado.

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